sexta-feira, junho 24, 2005

o sistema de som LCD

É compreensível. Com três governos péssimos nos últimos anos (o Santana primeiro-ministro, foda-se, ainda não me esqueci!), com o poder de compra da classe média a baixar 15% em 4 anos, com quase meio milhão de desempregados no país, com o Sócrates a achar que, afinal, o caminho do sacrifício cego é que é bom e a continuar o belo trabalho que criticava (parecia que criticava, quando, calado, franzia o sobrolho), os jovens vêem a sua vida sem futuro. Então, como em todos os momentos históricos de crise, encolhem os ombros e viram-se para si próprios.

Nada melhor que uma pista de dança para nos virarmos uns para os outros e para nós mesmos. Eu, que detesto dançar e que tenho dificuldade em imaginar sítios piores para estar do que numa discoteca (o barulho desumano, fumo, muito fumo, as luzes esquizofrenéticas, gente suada em pé e aos encontrões, a agitar-se sem propósito em figuras ridículas - enfim, um pequeno inferno), compreendo bem a necessidade de frequentar estes espaços fora do tempo. Quando se sai, o mundo parece um lugar melhor.
Ora acontece que, numa noite a meio da semana de trabalho, vi-me levado ao Lux. Era meia-noite de quarta-feira. Passada uma fracção de segundos, já era quinta-feira, coisa que acontece semanalmente sem que, muitas vezes, nos demos conta. Aquilo estava cheio de gente, jovens à procura do primeiro emprego, certamente, porque não mostravam o mínimo indício de preocupação com as horas de despertar na manhã seguinte.

James Murphy no palco, ao microfone avançado, e começa o beat. Graças à intercessão de Santa Cecília, eu já sabia que os LCD Soundsystem eram mais que uma máquina de batidas rítmicas. Os rapazes (parece que há outro que secretaria o Murphy) fazem muito mais que ritmos para puxar o pé. Enriquecem a dance music (coisa que, por si só, não é difícil de enriquecer, tão mísera é a sua composição anatómica) com o vigor um pouco menos acéfalo do house, mas - e sobretudo - com o nosso mui querido rock. Rock.
O resultado, tanto nos registos como ao vivo, é uma música exuberante, encantatória e de uma simplicidade muito sedutora. É um daqueles casos em que nos perguntamos Porque é que eu não me lembrei disto? É que até parece fácil juntar uma batida disco com uns pós electro-qualquer-coisa e, caramba!, o bom e velho rock.

Ao vivo, até parece que apetece dançar. Mas não é verdade. Digo eu, que sou imune a essa triste insanidade. O que acontece é que a música nos dança. E isso é outra coisa bem diferente.



Por outro lado, o James Murphy está numa bela idade e, portanto, tem a sageza e o discernimento, feito de sabedoria e experiência, para ir buscar influências aos sítios apropriados. Como não tem a veleidade de ser tentar ser original à força (coisa comum na juventude ignorante da história e sem noção das realidades: estúpida, portanto), ele sabe que «não é fácil competir com a acumulação do passado. Inicialmente é-se compelido a copiar aqueles de que gostamos, punimo-nos por isso e, depois, alguns conseguem fazer música com sentido, dando um pouco de si, e a maior parte não... Não existe outra saída que não seja tentar dar um pouco de nós, competindo com as nossas influências, as nossas falhas. A originalidade nunca nasceu da recusa do passado, mas sim da consciência dele, tentando apresentar algo único, individual, reconstruindo-o» (No Y de sábado, sem link disponível).
Assim, os LCD Soundsystem prestam um tributo descarado, um bonito plágio e uma homenagem merecida aos The Fall. Eles sabem, como nós sabemos (pronto, como EU sei), que o Mark E. Smith influenciou mais pessoas do que leitores tem este blog (é um pequeno exagero, mas é um recurso estilístico do autor). E eis que, no cd ou no Lux, tocam o excelente Movement, com som, voz e ambiente a lembrar os bons tempos. Também se ouvem outras coisas, mas essas já v. exas. ouviram na telefonia. E se não prestaram atenção, é bem feita. Têm o que merecem. Fiquem lá com o Beck e os Coldplay.

Saímos e cá fora governa o Sócrates, com 21% de IVA, o Santanete intelectualóide ameaça-nos em cartazes com «projectos com princípio, meio e fim», o filho-do-rei e maçon-amigo-dos-diamantes-da-Unita quer ir "trabalhar" para Sintra, há greves dos professores, da Carris, manifestações das forças policiais, da função pública, desemprego e nomeações de novos amigos. As sondagens dão os resultados do costume. Se ninguém prestou atenção, é bem feita. Têm o que merecem. Fiquem lá com o PS, com ou sem D. Por mim, danço oiço o Give It Up.
CC

Comments:
Parabéns, excelente caro escriba (como os do Blitz gostam de se intitular)! Bem, melhor trocarmos de papéis, eu passo a anunciar a Terra e tu passas a fazer as recensões musicais.

Isto apesar do No Future ser um pregão já muito estafado dos Sex Pistols (por falar em bom plágio). A alienação é consequência do sistema capitalista em que vivemos, independentemente de quem detém o poder, já dizia Marx.

Faltou o disco infiltrator essa é que foi!
 
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