terça-feira, setembro 26, 2006

A Esperança

Diz o povo, na sua sabedoria intuitiva, que 'mais vale um bom mandador do que um bom trabalhador'. É uma grande verdade.
A Administração Pública portuguesa sofreu de um estranho processo que a revolucionou e manteve muitas coisas na mesma.
Desde 1974 que o país sofreu uma evolução no sentido da maior qualificação. Diminuiu brutalmente o número de analfabetos (embora se mantenha um altíssimo nível de analfabetos funcionais, mas isso é outra conversa), aumentou a qualificação académica geral e aquilo que era há 30 anos a excepção começa hoje a ser a regra: licenciados. Pessoas com formação universitária.
Mas, noutro nível, a Administração sofreu um fenómeno catastrófico de reversão. As chefias deixaram de o ser por progressão na carreira e passaram a sê-lo por critérios que não incluem, de preferência, a competência.
O caso que conheço melhor é o da Câmara de Lisboa. E onde conheço muita gente.
Posso contar pelos dedos de uma mão as pessoas que exercem posições de chefia com competência. Não me chegaria aqui o espaço de um post para enumerar os incompetentes que mandam. A regra é, de resto, a da incompetência. E é este um fenómeno vertical.
Poderia começar pelos vereadores que beneficiam de tratamento por título académico que não detêm e ir por aí abaixo, até à chefia de divisão, enumerando os que foram colocados por serem amigos, partidários ou, pura e simplesmente, credores de favores. Julgo que poderia referir um ou dois casos em que isto não é assim. Lembro-me, aliás, de uma chefe de uma divisão de informática, ainda no tempo de João Soares, que não conseguia distinguir um computador de um simples terminal e que mandou distribuir terminais pelos funcionários julgando que eram computadores.
O cenário, grosso modo, mantém-se hoje. Correndo o risco de me enganar, julgo que não deve haver nenhuma chefia, actualmente, que não esteja em regime de comissão de serviço. Há anos que não há concursos, o que é absoluta e totalmente ilegal. Mas prática corrente, sem qualquer preocupação por parte dos respectivos serviços de fiscalização da Administração Central.
Este cenário leva, por isso, a comportamentos inadjectiváveis, de inqualificável cobardia e falta de verticalidade, em que se aceita a asneira e o disparate sem protesto, com medo de se perder o lugar, o carro, o telefone, o vencimento mais gordo e a mais rápida progressão na carreira.
Mas leva também, por arrastamento, à desresponsabilização, por ninguém assumir nada nem querer propor nada.
Julgo, de resto, que se afastam propositadamente as pessoas competentes e quando são nomeadas é sempre no pressuposto de que os serviços que vão chefiar não têm importância ou na base do engano, por quem nomeou não se ter apercebido de quem nomeava.
A juntar a isto, é a roda e a festa dos assessores. Estes, vou-me apercebendo, são de dois tipos. Ou gente já madura, experiente na arte de ter tacho sem produzir resultados, apenas aparecendo na altura da fotografia, ou gaiatos arrogantes e mal educados, por regra mal formados, sempre agarrados ao telemóvel, símbolo patético de gentalha patética, que manda sem saber trabalhar e que quando trabalha melhor faria que estivesse quieto.
A Administração funciona porque os técnicos são competentes, porque os funcionários de base, para utilizar uma linguagem partidária, são esforçados e dedicados, porque têm orgulho e brio naquilo que fazem, apesar da canalha que manda neles e que mantém as suas regalias enquanto eles vêem, de ano para ano, os seus ordenados mais pequenos e encolhidos.
Entristece-me vêr os funcionários caçados e perseguidos como se malfeitores fossem. Enfurece-me ver a comandita de merda, a canalha ordinária que manda nesta câmara (ah, como me enganei, como me enganei ...) e na Administração em geral continuar a medrar.
Mas a esperança, essa, é a última a morrer. E talvez um dia, talvez, essa canalha vá parar à lixeira de onde nunca deveria ter saído.
AR

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