quinta-feira, abril 22, 2004
road of 1000 corpses
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A média de animais mortos (cães, gatos, ratos e esquilos) e depostos em simultâneo nas bermas da 2ª Circular e do IC 19 é de 4,15. Alguns cadáveres chegam a perdurar na estrada mais de três meses, pelo que estas vias sacras se tornam laboratórios vivos (passe a expressão) de tanatologia. Aí pode observar-se o desenvolvimento dos chamados fenómenos destrutivos dos cadáveres: a autólise, a necrobiose, a putrefacção e a maceração, bem como os seus vários modos (por organismos – aeróbios, aeróbios facultativos e anaeróbios) e suas diversas fases de evolução (coloração, produção de gás, liquefacção e esqueletização).
Significa isto que, ao longo de poucas semanas, se pode observar ao vivo (lá estou eu outra vez, desculpem) e a cores a metamorfose dos cadáveres, desde o estado imediato à morte (por atropelamento, claro), em que o corpo do animal ainda se encontra quente e o sangue e as entranhas se apresentam com um vermelho vivo (bolas, hoje não acerto nas palavras!), passando pelo inchaço do corpo e início da sua decomposição, até à diluição da massa óssea e do couro no asfalto, transformando-se o ex-animal no tapete por onde rolam as viaturas dos felizardos que atravessam Lisboa e Sintra todos os dias. É possível, por exemplo, verificar a lenta transformação do pêlo dos gatinhos, primeiro enchendo-se de pó e terra, depois tornando-se rijo, espesso e fusco, devido ao escurecimento do sangue seco, e por último ficando progressivamente mais fino, pela decomposição das gorduras e fermentação caséica e amoniacal.
Tudo isto, evidentemente, com a participação activa dos vários tipos de insectos, ácaros e outros artrópodes que acompanham a mutação do cadáver fresco até aos seus restos dessecados. Sim, uma parte das aulas diárias é dedicada à entomologia. Mas isso fica para mais tarde. Afinal, vamos todos passar por isso.
CC